Picon
Gravatar

um computador chamado magnólia (finalmente)

olá meus caros. como vão as suas vidas?

estive matutando um bocado nos últimos dias sobre a natureza relativa das estruturas simbólicas que utilizamos e sua agregação aos objetos. foi coisa que surgiu de repente, refletindo sobre a vida, e foi bem legal de brincar com as idéias. em um certo momento me ocorreu que estas idéias podem ser de grande utilidade para vocês (nós? vivos? nós vivos?). algumas delas são bem óbvias, e eu gosto assim. soluções elementares e óbvias deixam a lâmina de occan (http://en.wikipedia.org/wiki/Occam's_Razor) morrendo de tesão. :)

sem mais... vamos às minhas divagações simbólicas (e, acreditem, eu fiz o que pude para ser conciso)

-=-

Estava pensando em como confundimos as qualidades naturais dos objetos (seu peso, sua forma, as propriedades químicas e físicas dos materiais empregados ou de sua configuração neste objeto, como no caso de uma placa de circuitos, etc...) com as designações, usos, sentidos e sentimentos que agregamos consciente ou inconscientemente a estes mesmos objetos. Ao confundir a instância pura e natural do objeto com seu(s) nome(s) e usos e sentidos, por vezes nos tornamos cegos (ou ao menos um bocado míopes) às reais possibilidades de uso, relação, reapropriação e ressignificação do mesmo. É, então, a meu ver, fundamental para o processo de reapropriação/reutilização/ressignificação/reciclagem de qualquer objeto (seja ele mesmo um objeto concreto, ou algo abstrato) que consigamos separar aquilo que é natural e intrínseco ao mesmo daquilo que é "agregado" ao objeto por nossa cultura, grupo, ou por nós mesmos.

Olhar para uma placa de circuitos queimada, por exemplo, e conseguir enxergar nela a matéria prima para uma capa de caderno é um exemplo adorável deste processo. A princípio, quando comprado, aquele objeto era chamado de "placa eletrônica de (complete a lacuna)", foi adquirido como tal, e se prestou provavelmente a este uso. Em certo momento ela foi desagregada do sistema no qual ela realizava esta função (provavelmente por não conseguir mais realizar seu trabalho) e então virou uma "placa de circuito queimada/usada/descartada". Bem... uma placa de circuito queimada/usada/descartada, enquanto tal, não serve mesmo para muita coisa. Apresenta ainda, por outro lado, um perigo ao meio ambiente por causa de todos os metais pesados empregados em sua manufatura... logo, nós, caras legais, não podemos nem jogá-la fora em paz. Então ela fica lá em cima da mesa, ou no fundo de uma gaveta, e você pensa consigo mesmo "é. eu tenho uma placa de circuitos queimada.".

Então, em um certo momento, você percebe que aquela placa tem um formato assim-assim e uma rigidez assim-assado que fariam dela, depois de alguns ajustes, uma excelente capa de caderno. Deixando de lado a idéia de que aquilo "é" uma placa de circuitos e não uma potencial capa de caderno, você resolve manipular ela um pouco. Retira dela os componentes, lava ela com ácido (ou seja lá com o quê vocês lavam estas placas) para retirar (sejá lá o que vocês retiram delas) e faz um corte aqui e outro alí para que ela assuma as dimensões adequadas para sua nova "identidade". Então, em um certo momento, você não tem mais na mão uma placa de circuitos e sim uma placa rígida do tamanho de uma capa de caderno, e muito adequada para tal uso. Você então faz os furos por onde passará a espiral do caderno, junta a recém-ressignificada capa de caderno às folhas, passa a espiral para deixar tudo juntinho (ou, em homenagem ao DP agregante, "para deixar tudo agregadinho") e, pronto... você fez mágica. Transformou uma placa de circuitos em uma capa de caderno.

Agora... de bruxo pra bruxo... onde está a mágica aí? Está na sua cabeça, meu amigo. A tranformação física pela qual o material passou foi infinitamente do que a trasmutação simbólica realizada sobre o mesmo. Foi necessário perceber que a placa de circuitos não é necessáriamente uma placa de circuitos, e que ela PODE ser outras coisas, que ela tem outras propriedades que por vezes ficam escondidas por trás de seu nome e uso tradicional, para conseguir realizar esta transmutação. Esta é a mágica. A mágica da transmutação/transformação/resignificação universal é baseada em nossa capacidade de perceber que as coisas são EXATAMENTE aquilo que elas são, e que seu nome, seus usos, seus significados, aquilo que sentimos por elas, tudo... são parte de nós, e não parte integrante da "coisa". Para sermos capazes de transformar TUDO à nossa volta, precisamos da clareza do que é a NATUREZA das coisas, e do que é significado agregado a elas. Este é o segredo do Computador Chamado Magnólia.



se você já entendeu a idéia, pode parar de ler por aqui.
o texto abaixo é uma explicação ainda mais lenta e mastigada do processo.
daqui pra frente eu NÂO vou tentar ser conciso. :)



Vivemos inseridos em um mundo de objetos e técnicas. quando olhamos à nossa volta, percebemo-nos cercados por objetos das mais variadas formas, cores, nomes e utilidades. mas será que estes nomes e utilidades são tão naturais (estou TENTANDO evitar a palavra "intrínsecos", pq acho ela muito empolada) a estes objetos quanto suas formas e propriedades químico/físico/eletro/mágicas? eu penso que não.

Calma, calma. Eu explico.

Peguemos, por exemplo, uma lata de cerveja ou de refrigerante. Eu tenho uma aqui bem na minha frente. Ela é branquinha e tem SKOL escrito nela. Vocês tem uma lata aí? Peguem-na então, por favor...
Estão com a sua lata em mãos? Ela nos vai ser muito útil nesta conversa.

Todos com suas latas? Então vamos nessa.
Primeiro vamos olhar para a lata. O que vemos? Eu vejo um objeto cilíndrico com uns 3 ou 4 dedos de diâmetro e uns 8 ou 9 dedos de altura (para que usar outras medidas quando tenho dedos?). Não sou lá um engenheiro de materiais, mas acho que a minha lata é feita de uma liga de alumínio e mais alguns outros metais. E a de vocês? Se parece com a minha? Bem... Isso não importa. Olhemos mais um pouco para ela. A lata é leve, principalmente agora que está vazia. Se a de vocês não estiver vazia, parem de ler este email por um momento e bebam. Cerveja ou refrigerante quente é uma merda (ou, como dira Pirsig, é de baixa qualidade... mas isso é assunto pra outro email). Pronto? A lata de vocês está tão vazia quanto a minha? Então continuemos...

Como eu dizia... a lata é leve, e é oca. Um dos usos dados a ela -- o uso para o qual era foi destinada provavelmente quando vc a comprou -- era conter uma certa quantidade de algum líquido. Ela possuía uma tampa razoavelmente hermética que mantinha o líquido lá dentro, a salvo de vazamentos ou de contatos com o mundo exterior, e impedia o escape do gás infundido no líquido. A lata também é pintada do lado de fora, alardeando o líquido que está dentro dela e todas as qualidades naturais (viu, nem falei intrínsecas) ou "agregadas" (pelo anunciante, pela cultura, etc...) a este líquido. Agora que ela está vazia, ela não está mais tendo este uso. O que é ela agora? Uma lata vazia. Para que serve ela? Se você coleciona latas, talvez ela tenha um bom lugar na sua coleção. Se você não tem copos em casa (alguns amigos tem o dom de quebrar todos os nossos copos, não é?) você pode fazer uma leve adaptação na parte superior dela e usá-la como um copo (e se a adaptação for bem feita, seus lábios estarão um bocado seguros de cortes causados pelas bordas vivas do metal fino). Você pode amassá-la e jogá-la no lixo, e tem gente que acha isso um bocado gostoso. Você pode fazer muitas outras coisas com ela, basta olhar para lata e ter aquele pensamento do tipo "Ei! Se eu fizer isso e isso e isso com ela, ela pode servir para tal coisa". Até aí nenhuma novidade, né? Gastei uns 10 minutos de vocês a toa? Acho que não. O próximo passo que é interessante, e ele depende deste passo...

E se eu disser que esta "coisa" que vocês estão segurando na mão não É uma lata? Se eu disser que ela não se CHAMA lata, e que portar cerveja ou refrigerante ou suco em seu interior não é algo NATURAL (e... ok... eu me rendo... INTRÍNSECO) a ela? Se eu disser que LATA é apenas um nome, e que portar líquido é apenas um uso, e que ambos foram agregados a ela da mesma forma que colamos um post-it na borda de nosso monitor ou damos nome a um cachorro? Estamos chegando a um ponto interessante, não é? É aí que começa a parte que me interessa falar...
Os objetos (e TUDO no universo é, sob certo ângulo, um objeto), sejam eles naturais ou fabricados, possuem em um dado momento algumas propriedades naturais (que, em última análise, podem elas mesmas não ser tão naturais assim, mas vamos em frente). Sua forma, seu peso, o material do qual é feito (com suas propriedades químicas e físicas), sua cor, seu cheiro, etc e tal. À maior parte dos objetos agregamos também uma teia de usos, utilidades, sentidos, sentimentos, emoções... e por vezes estes se tornam tão "ligados" àquele objeto (sob nosso ponto de vista) que não conseguimos mais nem nos lembrar de que eles foram atribuídos ao objeto, e que não fazem parte da NATUREZA dele.

Se pensarmos que diferentes pessoas, em diferentes lugares, dão nomes diferentes (e usos diferentes) para os mesmos objetos, podemos entender um pouco melhor como é a idéia. As formas de manuseio, as técnicas ligadas aos objetos, o nome e a importância cultural dos objetos, tudo isso muda de lugar pra lugar e de pessoa pra pessoa. No fim das contas o que existe são as pessoas, com suas idéias a respeito das coisas... e as coisas. Como eu disse antes, tudo no universo é, de certa forma, um objeto. Tudo aquilo que você percebe e manuseia, seja diretamente (como a lata que você tinha nas mãos) ou indiretamente (como um avião de controle remoto), concreto (novamente como a lata, ou como o teclado que está na sua frente) ou abstrato (uma idéia, uma técnica, etc...) é um objeto inserido na sua percepção do mundo à sua volta. Nós também somos objetos para os outros, neste aspecto (e nada de piadinhas sobre mulheres e homens objeto aqui. o papo é sério, ô kct!). Como diz o nosso amigo DPadua, "minha vida é ficção para os seus sentidos". Mas esta aplicação deste pensamento, a aplicação dele às pessoas e relações, é algo muito complicado. Vamos nos ater, por agora, talvez, a pensar a aplicação dele a objetos inanimados (ao menos, os que parecem inanimados a princípio).

Vamos pegar o exemplo de uma garrafa. Aqui no Brasil pode-se falar "garrafa" e ser entendido como falando daquela coisa que eu e você (provavelmente) chamamos de garrafa. Por outro lado, posso inferir que haja aqui mesmo no Brasil outros nomes ligados à mesma coisa que chamamos de garrafa. Como um exemplo meio cara de pau, eu cito alguns amigos meus que chamam as garrafas de cerveja de "ampolas". Saindo um pouco do Brasil, em vários países há pessoas que agregam outros nomes àquela mesma coisa que chamamos de garrafa. Pode-se dizer que em quase todos os lugares do mundo ela tem um uso parecido, mas isso não é necessáriamente verdade. Em um filme um tanto antigo, chamado "Os Deuses devem estar loucos" (se não me engano), uma garrafa de Coca-Cola cai em meio a uma tribo africana. Sem entender ao certo o que é aquilo, e sem uma idéia formulada sobre aquele objeto, e influenciados pela forma como aquela garrafa foi parar lá (caída dos céus, de um avião), eles a usam como objeto de adoração. Eles nem sequer chamariam ela de garrafa. Deram a ela outro nome. Dando um outro exemplo, eu poderia afirmar sem medo de errar que quase todo mundo que está lendo este email até aqui (que é, portanto, gente MUITO interessada no assunto) pode me dizer uma dezena de usos criativos para garrafas pet. Para a maioria que as vê cheias no supermercado ou na geladeira, ou vazias a caminho do lixo, elas parecem ser apenas garrafas que servem apenas para guardar o seja qual for o líquido que tenham dentro delas. Mas olhando pra elas vazias, e pensando que recortadas elas podem virar recipientes initeressantes de boca larga (eu mesmo tenho um incensário feito com uma garrafa plástica), ou que quando tampadas elas formam um balão cheio de ar com capacidades ótimas de buoiância (aaaah, que delícia de palavra bizarra), percebemos que elas podem virar outras coisas além de garrafas. Eu mesmo adoraria ter uma cadeira, ou mesmo um daqueles botes de piscina, feitos com garrafas pet. Consumo de coca-cola e sprite não me faltam...


Bem... estas são algumas idéias iniciais. Espero que tenham feito sentido para vocês.
Desculpem o email ENOOOORME.
Tive o cuidado de indexar a idéia de uma forma sintética lá no início, para que todos tenham a oportunidade de entender do que eu estava falando ANTES de ler este email inteiro. Ainda há muita coisa que quero dizer a este respeito, mas isso aqui já é o bastante pra começar a conversa.


Abraços do Duende Rajado Imaginário.


p.s. querem saber o porquê do título do email? para aqueles que não advinharem, eu conto depois. :D

p.p.s. eu poderia ficar escrevendo e reescrevendo este email eternamente, e nunca enviá-lo. resolvi parir ele logo e enviar. desculpem os erros de português e o tamanho. é o jeito que o email estava agora. tá prontim para o manuseio de vcs. façam o que quiserem. são idéias no espaço...

--
Daniel Duende Carvalho
Blog - http://newalriadaexpress.blogspot.com
Orkut - http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=16031243622865224309
_______________________________________________
Metarec mailing list
Metarec@...
http://www.colab.info/cgi-bin/mailman/listinfo/metarec

Gmane